segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O Instinto Moral

O tradicional jornal The New York Times foi um dos pioneiros em permitir acesso gratuito a seu conteúdo na Internet. A resposta foi muito boa, e recentemente até os arquivos das versões anteriores à web estão disponíveis, devidamente digitalizados. Não apenas por isso, mas também por isso, sou um dos seus milhares de leitores diários.

Aos domingos, o NYT publica sua Magazine, uma revista de atualidades e variedades. Ontem, o principal artigo era The Moral Instinct, escrito pelo famoso psicólogo e divulgador científico Steven Pinker. O texto traz um resumo sucinto, porém completo, do estado atual da chamada "Ciência da Moral", um campo de pesquisa intrigante que abrange psicologia, lingüística, antropologia, neurologia e filosofia, entre outras ciências relacionadas, na busca da compreensão da Moral. É justamente essa abordagem interdisciplinar que direciona a busca para uma compreensão includente, pressupondo um entendimento da Moral a partir de múltiplos pontos de vista - às vezes conflitantes. Entre os experimentos relatados por Pinker em seu artigo, estão os dilemas filosóficos estudados por neurologistas com auxílio de ferramentas de escaneamento cerebral, para entender quais regiões do cérebro se ativam quando nos defrontamos com esses dilemas. Ele conta como estudos antropológicos e psicológicos em larga escala são conduzidos a fim de detectar diferenças e similitudes no entendimento humano da Moral, a fim de isolar ou identificar padrões e conceitos universais relacionados à Moral.

As implicações dessa busca pela Moral universal, ou pelo menos pelo entendimento do que Pinker chama "O Instinto Moral", são enormes. As próprias fundações das religiões são afetadas, já que entre as possíveis conclusões da linha de pensamento proposta pela Ciência da Moral está a aceitação de que a religião, seja ela qual for, não é a detentora das leis morais, mas que o senso moral é inerente ao ser humano, em diferentes escalas. Mais do que isso, a Moral parece ser universal, embora fatores culturais e sociológicos importantes influenciem quais elementos da Moral são mais ou menos valorizados em determinados grupos. Ainda que aparentemente complexo, Pinker consegue apresentar um bom resumo do tema em seu claro e bem escrito texto. Vale a leitura - opinião aparentemente compartilhada pelos leitores do NYT, já que o artigo figura no topo da lista dos mais enviados por email desde sua publicação até o momento em que escrevo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Paris, Paris...

Hoje me dei conta que faz dias que não publico nada por aqui. E também me dei conta que não escrevi nada sobre Paris.

Bom, Paris é fantástica, inesquecível, affascinante. É, sem dúvida, a cidade mais marcante que já conheci. Tem não só uma quantidade enorme de monumentos, museus, igrejas e lugares históricos para se fazer turismo cultural, mas também suas ruas e praças são encantadoras, embelezadas por uma arquitetura cativante.

Em sete dias de viagem, Daniela e eu conhecemos seis museus, visitamos três igrejas e, claro, os monumentos obrigatórios (Torre Eiffel, Arc de Triomphe e as praças). Ainda na sexta, depois de descansar da viagem, fomos à Champs-Elysée e chegamos até o Arc de Triomphe. No sábado, visitamos o Musée d'Orsay. Foi, talvez, a visita mais agradável da viagem. Em uma tarde conseguimos visitar o museu todo, sem pressa, aproveitando o banho de cultura e o deleite para os sentidos. Domingo, visitamos o Hôtel des Invalides, onde fica a impressionante necrópole militar, onde estão sepultados os restos de Napoleão, e o Musée historique de l'Armée, com uma ala reservada às Grandes Guerras e outra às armas e armaduras antigas e medievais. Ainda deu tempo de ver a Torre Eiffel, à noite.

Na segunda-feira, dia 24, visitamos a Saint-Chappele e a Catedral de Notre-Dame, um dos símbolos da cidade. Também encontramos a Marília, uma amiga brasileira que estava passando o período das festas com a mãe na França. Ela acompanhou a Daniela ao Centro Georges Pompidou, enquanto eu saí para fazer compras. Ceamos no hotel - e a saudade da família e dos amigos bateu forte.

No dia 25, com os museus fechados, fomos à Basilique du Sacré-Cœur, de onde se tem uma linda vista da cidade. Durante o dia, caminhamos pelas ruas, aproveitando o friozinho. Reservamos a quarta-feira inteira para o Louvre, mas não deu pra ver nem metade das obras. Preferimos nos dedicar aos objetos históricos medievais e às obras de arte, sobretudo a escultura e pintura italiana. Na quinta, fechamos o roteiro turístico cultural com o Museu Rodin, mais lojas e, à tarde, o Musée National du Moyen Âge.

Não houve tempo de ir ao Palácio de Versailles ou à EuroDisney (nem interesse, neste último caso), nas redondezas. Mesmo dentro de Paris não fomos à uma série de lugares interessantes, como a Opera Garnier ou o Cimetière du Père-Lachaise. Vamos voltar, com certeza, em uma temporada de tempo mais agradável - a gripe que peguei por lá não foi nada agradável.

E, contrário ao que esperávamos, os franceses não eram nem malcheirosos nem mal-humorados. Pelo menos aqueles com quem tivemos contato não eram. Sei lá, vai ver demos sorte.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Capitão Nascimento para presidente

Eu sempre chego atrasado nos assuntos polêmicos. Mas, fazer o que, se assisti Tropa de Elite somente ontem? Afinal, estou na Itália. A pirataria aqui não é como no Brasil...

A história é simples, direta e bem filmada, com intensas cenas de ação de qualidade surpreendente em meio a favelas e cenários bem familiares da realidade brasileira. Os atores são empáticos e trabalham muito bem, especialmente Wagner Moura, intérprete do novo super-herói brasileiro, o Capitão Nascimento. Apesar da qualidade cinematográfica elevada, o filme de José Padilha (o mesmo do documentário Ônibus 174) ainda fica um degrau abaixo de Cidade de Deus.

Em poucas palavras, Tropa de Elite conta a história semi-ficcional da busca do infalível e incorruptível Capitão Nascimento por seu substituto no BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Mas o enredo é um fator menor em Tropa de Elite. A história serve apenas como pano de fundo para mostrar o BOPE como último bastião da legalidade em um sistema corrupto e degradado que inclui não apenas os traficantes dos morros, claramente os vilões da história, mas também a própria polícia dita "convencional" e as classes média e média-alta "socialmente engajadas" da Zona Sul.

Na minha opinião, Tropa de Elite levanta duas questões importantes. A primeira diz respeito ao estado de guerra que a crise de violência no Rio de Janeiro atingiu. A história nos faz pensar que, de fato, a situação chegou a um tal nível de "guerra é guerra" em que já é aceitável abrir mão de certas garantias em termos de direitos humanos quando se tratando com o inimigo. A sociedade se viu admirando uma polícia que esbofeteia, tortura e mata criminosos. Depois do primeiro instante de desconforto e surpresa, os aplausos passaram a vir mais facilmente. Daí a termos Capitão Nascimento como solução para todos os problemas do Brasil, foi um passo. Essa sensação de que "bandido bom é bandido morto" estava, em grande parte, adormecida pelo politicamente correto dominante. Tropa de Elite a fez vir a tona, e as suas conseqüências podem ser muito, mas muito perigosas.

A segunda questão diz respeito justamente à identificação do inimigo. Por muito tempo, o cinema brasileiro viu com relativos bons olhos a criminalidade. O traficante gozava, via de regra, da proteção de uma explicação contextual sócio-econômica em que era mais vítima do que vilão, mais explorado do que explorador. Tropa de Elite inverteu isso de modo revolucionário. Os traficantes são, clara e indiscutivelmente, os Bandidos, com B maíusculo. Eles são cruéis, são maus, e seu extermínio não é, nem de perto, fonte de revolta. Essa simplicidade agrada. Afinal é guerra, somos nós contra eles e, nesses casos, a separação tem de ser nítida e límpida. Além disso, os consumidores, mesmo os playboizinhos maconheiros das faculdades, não são mais viciados doentes ou , mas cúmplices dos traficantes, claramente identificados como o inimigo. Consumidor de drogas, na visão que o filme passa, é quem financia o tráfico, é quem colabora com o inimigo. Logo, é inimigo também. Nítido e límpido. Quem dera a realidade fosse assim, nítida e límpida.

Insomma, Tropa de Elite é uma chamada às armas para a sociedade brasileira, particularmente a carioca, cercada pelo conflito entre o poder legal, representado pela polícia, e o poder paralelo, representado pelo tráfico. Uma chamada às armas que encontrou respaldo e ressoou esperanças e sentimentos profundamente incrustadas na consciência coletiva da sociedade. A idéia é: violência se responde com violência, de preferência violência eficiente, do nível que só o BOPE consegue. Se isso vai ajudar a resolver o problema ou se vai apenas agravá-lo, apenas o tempo dirá. Pessoalmente, acho difícil, mas o fato de que as questões que o filme levantou ganharam as manchetes nacionais é um fato a se considerar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Um ano na Itália, enfim a neve

Ontem, 2 de Janeiro de 2008, foi o primeiro aniversário da minha chegada na Itália. Cheguei preparado para a neve, mas não fazia tanto frio quanto faz hoje. Aliás, mal sabia eu que a primeira neve que eu veria seria apenas um ano depois! No fim das contas, celebrei o aniversário da minha chegada debaixo de neve, a primeira que vi por aqui. Bela, delicada, os flocos caindo devagar, dançando ao vento. Hoje pela manhã, tudo estava branquinho.

Porém, o que mais me surpreendeu um ano atrás não foi a falta de frio, mas sim o fato da cidade estar praticamente vazia. Aqui, as férias de final de ano usualmente se estendem até a Epifania, dia 6 de Janeiro. Sem muito o que fazer, lembro que naquela primeira noite resolvi caminhar, sozinho, até a Piazza della Repubblica. Já na primeira semana, corri atrás de atendimento médico - havia feito uma quimio no dia 29 de Dezembro, que loucura! -, encontrei o Politécnico, aprendi a usar a metropolitana e saí à caça de um apartamento para alugar.

Insomma, foi uma época interessante, cheia de desafios e descobertas, mas também muito solitária. Daniela chegaria apenas 50 dias depois, já em Fevereiro. Mas isso já é assunto para outro post.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Feliz Ano Novo!!!

É o que se diz nesta época, né não?

Aqui na Itália, são os votos de Buon Anno!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Ecco le vacanze

Finita a correria de final de ano do doutorado - proposta di ricerca a apresentar, avaliações e papers dos cursos, finalização da etapa de coleta de dados, etc. - e da faculdade da Daniela, uma bela semana de férias e passeio nos aguarda em Paris.

Deixo aqui os votos de um gioioso Natale a tutti!

Antes do fim do ano escrevo de novo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Mundo aos pés do Milan, de novo

Il Milan travolge il Boca, manchete da Gazzetta dello Sport. A foto abaixo mostra a alegria dos milanistas em Yokohama.

Ontem o Milan, o clube com mais conquistas relevantes entre todos os clubes de futebol do planeta, se sagrou tetracampeão do mundo. É realmente impressionante. São 18 títulos internacionais e 29 conquistas nacionais importantes. Uma equipe poderosa, sempre disputando como favorita os campeonatos de que participa. Este ano, venceu a Champions 2006/2007 e já desponta como favorita para vencer novamente na temporada 2007/2008. Além de tudo, é o time do melhor jogador do mundo disparado, Kaká.

E, vejam só, o potente Milan, tetracampeão do mundo, já esteve na Série B. Duas vezes.