Na tarde de hoje, o governo Prodi vai à prova na Câmara. Segundo as previsões da imprensa, o "sim" ao governo deve passar com alguma facilidade hoje: La Repubblica projeta 329 votos contra 287 da oposição. Nessa conta, já estão descontados da contagem pró-situação os 14 deputados da UDEUR, cujo apoio ao governo não é mais automático desde que Mastella deixou o Ministério da Justiça. Mais do que isso: Berlusconi anunciou que a UDEUR passou para a centro-direita, embora o partido oficialmente não o confirme. Neste caso, seriam 329 contra 301; ainda assim, uma razoável folga para Prodi e seus aliados.
Porém, amanhã vem o teste no Senado. Ali, as projeções são muito mais apertadas: 159 do governo contra 160 da oposição, 1 ausente e 1 indeciso. A decisão, nestas circunstâncias, fica à cargo de eventualidades, mudanças de última hora e ausências não previstas. Nestas contas, estão incluídos os senadores vitalícios. Uma vitória graças a esses senadores - teoricamente, não pertencentes a nenhum dos grupos antagônicos - indicaria uma maioria numérica, mas não política, e poderia desencadear um processo de transição controlada. Prodi, que inicialmente esperava conduzir o governo até o fim, poderia ter que preparar eleições antecipadas em 2009, ou ainda esse ano.
E o que acontece se o governo cair? Como é natural na Itália, não se sabe ao certo. A centro-direita pede eleições imediatas, o Partido Democrático e outros setores da esquerda acenam com a possibilidade de um "governo técnico" de transição. (Lembrando que, no sistema parlamentarista italiano, quem conseguir a maioria nas eleições parlamentares elege o Presidente del Consiglio dei Ministri). Embora isso seja assunto para depois das votações, o fato de que todos se movimentem ao redor da eventual queda do governo é mais um indício de que a crise, desta vez, é grave.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Aniversário do dia
Feliz aniversário, maninha! Estou com muita saudade, como deves imaginar. Espero que possamos nos ver em breve. E boa sorte para o final da faculdade.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
San Gaudenzio
Hoje é feriado em Novara. Dia de San Gaudenzio, padroeiro da cidade. Não sei muito sobre ele, além do fato que era amigo do padroeiro de San Ambroggio, padroeiro de Milano. Mesmo a Wikipedia italiana é surpreendentemente escassa a respeito de San Gaudenzio. O que sei é que os novaresi fizeram uma bela cúpula na igreja que leva seu nome. Uma bela homenagem que virou o símbolo da cidade.
E amanhã, deve cair o governo Prodi. Não se fala de outra coisa nos jornais e noticiários da TV.
E amanhã, deve cair o governo Prodi. Não se fala de outra coisa nos jornais e noticiários da TV.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Cena a casa nostra
Sábado, retribuimos a hospitalidade e recebemos nossos amigos Tal, Alberto, Gianni e Mela para uma janta. O cardápio era excelente, fruto da criatividade da Daniela: melanzana, cipoline e verduras diversas acompanhada de pão e gorgonzola de antipasto, risoto ai funghi de primo e peixe ai broccoli, purê de batatas e peperonata de secondo. Nossa, quanta comida! Bem ao estilo italiano. A refeição, por aqui, é um verdadeiro ritual social, uma espécie de comunhão ao redor da mesa e dos alimentos. E o assunto preferido das conversas, claro, é comida!
A propósito, acho que Daniela e eu já progredimos bastante nas intrincadas regras da refeição italiana. Antes, mal sabíamos o que e quando servir. Nossa primeira experiência deve ter sido decepcionante para nossos convidados: acabamos servindo dois primos, misturando arroz e massa na mesma refeição e, para piorar, a salada veio fora da ordem natural com a qual eles estão acostumados. Agora, já dominamos o básico! Só falta aprender mais sobre os inúmeros tipos diferentes de queijos, pães e arroz, cada qual apropriado para um determinado prato.
Um grande saluto aos amigos! Foi muito divertido, especialmente pela presença da senhorita Mela correndo ao redor da mesa. Que possamos repetir muitas vezes esses agradabilíssimos encontros, mesmo depois que voltarmos ao Brasil.
A propósito, acho que Daniela e eu já progredimos bastante nas intrincadas regras da refeição italiana. Antes, mal sabíamos o que e quando servir. Nossa primeira experiência deve ter sido decepcionante para nossos convidados: acabamos servindo dois primos, misturando arroz e massa na mesma refeição e, para piorar, a salada veio fora da ordem natural com a qual eles estão acostumados. Agora, já dominamos o básico! Só falta aprender mais sobre os inúmeros tipos diferentes de queijos, pães e arroz, cada qual apropriado para um determinado prato.
Um grande saluto aos amigos! Foi muito divertido, especialmente pela presença da senhorita Mela correndo ao redor da mesa. Que possamos repetir muitas vezes esses agradabilíssimos encontros, mesmo depois que voltarmos ao Brasil.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Robert James Fischer, 1943-2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
... e as notícias de hoje, ontem
Depois de escrever o post de ontem, fiquei me perguntando se, de alguma forma, não teriam razão os que reclamam de censura e falta de diálogo por parte dos contrários à participação do Papa na aula inaugural. Me dei conta, então, de que não há falta de diálogo, pois o Papa, se entendi bem a situação, não pretendia dialogar, mas sim discursar. Duvido que houvesse espaço para indagações por parte da platéia, ou mesmo algo parecido com um debate. Portanto, penso que "falta de diálogo" não é uma crítica muito adequada.
Além disso, menciona-se muito uma suposta vergonha pelo fato do Papa não poder falar em uma universidade italiana. Mas, que coisa, foi justo ele quem desistiu de participar, ninguém o proibiu! No máximo, os professores manifestaram seu descontentamento em uma carta aberta - o que não me parece muito ofensivo - e os estudantes ameaçaram protestar com cartazes e rock and roll. Pode ser que minha percepção esteja totalmente torta, mas acho que o Benedetto não aceita muito bem críticas e opiniões contrárias à sua.
Bom, continuando com as notícias de hoje, que não deixam de ser a continuação das de ontem... Outra bomba nos noticiários foi o pedido de demissão de Clemente Mastella, Ministro da Justiça de Prodi desde Maio de 2006. Líder de um pequeno partido de centro de inclinação democrática-cristã, a UDEUR, o ex-ministro, sua esposa e seus companheiros políticos têm sido alvo de diversas investigações de peculato e improbidade administrativa movidas pelo Ministério Público. Muito se falou sobre Mastella ter usado seu poder e influência como Ministro da Justiça para afastar procuradores e atrapalhar as investigações, o que gerou intensas críticas de boa parte da imprensa não-comprometida com Berlusconi (o qual, diga-se de passagem, também tem suas querelas com a justiça). Além disso, sua figura pública tem sido manchada por decisões políticas no mínimo duvidosas, como o apoio a uma lei de indulto que libertou 15 mil presos dos cárceres italianos, e suas opiniões favoráveis a uma eventual lei de anistia aos investigados e condenados no escândalo do futebol italiano de 2006. Se critica também a ligação de Mastella com políticos condenados por atividades mafiosas. Em suma, um currículo respeitável.
É realmente curioso como um político tão suspeito pudesse exercer um cargo como Ministro da Justiça. As críticas da mídia refletiam cada vez mais uma opinião pública descontente e desconfiada. Em Novembro passado, Mastella protagonizou um escandaloso chilique durante uma participação ao vivo no programa Anno Zero, da RAI2, acusando o apresentador de usar a televisão pública para atacá-lo. A situação foi se degradando ainda mais. Finalmente, ridicularizado abertamente pela mídia e atacado até mesmo por seus colegas de Ministério, como o Ministro da Infra-Estrutura Antonio Di Pietro, Mastella disse basta. E hoje Prodi aceitou seu afastamento. Agora, ele vai se defender das acusações como cidadão normal. Bem, não exatemente cidadão normal, pois Mastella ainda é prefeito de sua cidade, Ceppaloni. Mas pelo menos, não mais como um todo-poderoso Ministro da Justiça.
Além disso, menciona-se muito uma suposta vergonha pelo fato do Papa não poder falar em uma universidade italiana. Mas, que coisa, foi justo ele quem desistiu de participar, ninguém o proibiu! No máximo, os professores manifestaram seu descontentamento em uma carta aberta - o que não me parece muito ofensivo - e os estudantes ameaçaram protestar com cartazes e rock and roll. Pode ser que minha percepção esteja totalmente torta, mas acho que o Benedetto não aceita muito bem críticas e opiniões contrárias à sua.
Bom, continuando com as notícias de hoje, que não deixam de ser a continuação das de ontem... Outra bomba nos noticiários foi o pedido de demissão de Clemente Mastella, Ministro da Justiça de Prodi desde Maio de 2006. Líder de um pequeno partido de centro de inclinação democrática-cristã, a UDEUR, o ex-ministro, sua esposa e seus companheiros políticos têm sido alvo de diversas investigações de peculato e improbidade administrativa movidas pelo Ministério Público. Muito se falou sobre Mastella ter usado seu poder e influência como Ministro da Justiça para afastar procuradores e atrapalhar as investigações, o que gerou intensas críticas de boa parte da imprensa não-comprometida com Berlusconi (o qual, diga-se de passagem, também tem suas querelas com a justiça). Além disso, sua figura pública tem sido manchada por decisões políticas no mínimo duvidosas, como o apoio a uma lei de indulto que libertou 15 mil presos dos cárceres italianos, e suas opiniões favoráveis a uma eventual lei de anistia aos investigados e condenados no escândalo do futebol italiano de 2006. Se critica também a ligação de Mastella com políticos condenados por atividades mafiosas. Em suma, um currículo respeitável.
É realmente curioso como um político tão suspeito pudesse exercer um cargo como Ministro da Justiça. As críticas da mídia refletiam cada vez mais uma opinião pública descontente e desconfiada. Em Novembro passado, Mastella protagonizou um escandaloso chilique durante uma participação ao vivo no programa Anno Zero, da RAI2, acusando o apresentador de usar a televisão pública para atacá-lo. A situação foi se degradando ainda mais. Finalmente, ridicularizado abertamente pela mídia e atacado até mesmo por seus colegas de Ministério, como o Ministro da Infra-Estrutura Antonio Di Pietro, Mastella disse basta. E hoje Prodi aceitou seu afastamento. Agora, ele vai se defender das acusações como cidadão normal. Bem, não exatemente cidadão normal, pois Mastella ainda é prefeito de sua cidade, Ceppaloni. Mas pelo menos, não mais como um todo-poderoso Ministro da Justiça.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Notícias de ontem...
Depois do tradicional período de "vacas magras" de notícias durante as festas de final de ano, os noticiários voltaram com tudo nesse início de ano. Pelo menos é como tem sido aqui na Itália.
Ontem, a grande notícia foi a desistência do Papa em participar da aula inaugural da universidade La Sapienza, de Roma. Ele havia sido convidado pelo reitor e pelo senado acadêmico para proferir o discurso de abertura dos trabalhos de 2008 mas, frente ao protesto imediato de uma parcela considerável de alunos e professores, anunciou ontem que mudava de idéia.
Reações imediatas da política, tanto dos setores de direita quanto de esquerda. Ambos lamentam a falta de diálogo em uma instituição que deveria primar, justamente, pela abertura ao diálogo. Foi mais ou menos esse o tom das declarações do governo, começando pelo próprio Presidente do Conselho, Romano Prodi, ele mesmo professor universitário. Já a direita, sobretudo os esbravejadores conservadores, foram além. Para eles, a juventude atual está perdida, sem fundamento de valores morais. A declaração mais raivosa veio de Giuliano Ferrara, político e jornalista que, em um inexplicável "tilt" ideológico, se converteu ao "neoconservadorismo" após uma juventude comunista de líder estudantil nos anos 60. Ainda ontem, ele disse que agradecia por não ter concluído a laurea pela La Sapienza pois, se houvesse, teria de enviar o diploma de volta ao reitor, acompanhado de uma série de declarações pouco respeitosas sobre a capacidade cognitiva dos professores da instituição.
Porém, fizeram-se ouvir mais alto as numerosas vozes de alunos e professores que defendem, em primeiro lugar, o caráter laico da universidade, sua posição independente como centro formador de conhecimento, sobretudo científico. Cada um em seu devido lugar ou, como declarou um dos professores revoltados, "o Papa não me convida para ensinar Darwin na sua igreja na missa de domingo, porque nós deveríamos convidá-lo para pregar na aula inaugural?".
Mas, talvez mais importante, a insatisfação explosiva de Roma possa estar relacionada, embora não declaradamente, com a percepção de que, sob a guia de Benedetto XVI, a Igreja vem se posicionando cada vez mais contra o saber científico estabelecido. A fé cega, que não discute nem questiona, tem ganhado espaço e apoio do Papa-Teólogo. Ou seja, talvez o protesto laico em Roma seja mais uma reação do que uma ação, um contra-ataque da comunidade científica contra as pretensas ingerências da Igreja. Isso, porém, poucos comentam, menos ainda os políticos, interessados em manter sua bella figura frente a uma maioria católica, ainda que moderada, de eleitores em um país que definitivamente ainda é guiado pela religião e suas ramificações sociais e culturais. Até a grande imprensa reluta em apoiar, mesmo que indiretamente, os descontentes, conforme se nota neste editorial do La Repubblica. Nesta manifestação, assim como em outras, abundam termos como "intolerância", "medo", "recusa ao diálogo" e "censura". Palavras que, ao menos aos meus ouvidos, soam muito mais adequadas à postura histórica da Igreja do que àquela da Ciência. Em resumo: o Papa ganhou o posto de vítima do momento, e deve aproveitar.
Mas essa foi a notícia de ontem. Amanhã, as notícias de hoje!
Ontem, a grande notícia foi a desistência do Papa em participar da aula inaugural da universidade La Sapienza, de Roma. Ele havia sido convidado pelo reitor e pelo senado acadêmico para proferir o discurso de abertura dos trabalhos de 2008 mas, frente ao protesto imediato de uma parcela considerável de alunos e professores, anunciou ontem que mudava de idéia.
Reações imediatas da política, tanto dos setores de direita quanto de esquerda. Ambos lamentam a falta de diálogo em uma instituição que deveria primar, justamente, pela abertura ao diálogo. Foi mais ou menos esse o tom das declarações do governo, começando pelo próprio Presidente do Conselho, Romano Prodi, ele mesmo professor universitário. Já a direita, sobretudo os esbravejadores conservadores, foram além. Para eles, a juventude atual está perdida, sem fundamento de valores morais. A declaração mais raivosa veio de Giuliano Ferrara, político e jornalista que, em um inexplicável "tilt" ideológico, se converteu ao "neoconservadorismo" após uma juventude comunista de líder estudantil nos anos 60. Ainda ontem, ele disse que agradecia por não ter concluído a laurea pela La Sapienza pois, se houvesse, teria de enviar o diploma de volta ao reitor, acompanhado de uma série de declarações pouco respeitosas sobre a capacidade cognitiva dos professores da instituição.
Porém, fizeram-se ouvir mais alto as numerosas vozes de alunos e professores que defendem, em primeiro lugar, o caráter laico da universidade, sua posição independente como centro formador de conhecimento, sobretudo científico. Cada um em seu devido lugar ou, como declarou um dos professores revoltados, "o Papa não me convida para ensinar Darwin na sua igreja na missa de domingo, porque nós deveríamos convidá-lo para pregar na aula inaugural?".
Mas, talvez mais importante, a insatisfação explosiva de Roma possa estar relacionada, embora não declaradamente, com a percepção de que, sob a guia de Benedetto XVI, a Igreja vem se posicionando cada vez mais contra o saber científico estabelecido. A fé cega, que não discute nem questiona, tem ganhado espaço e apoio do Papa-Teólogo. Ou seja, talvez o protesto laico em Roma seja mais uma reação do que uma ação, um contra-ataque da comunidade científica contra as pretensas ingerências da Igreja. Isso, porém, poucos comentam, menos ainda os políticos, interessados em manter sua bella figura frente a uma maioria católica, ainda que moderada, de eleitores em um país que definitivamente ainda é guiado pela religião e suas ramificações sociais e culturais. Até a grande imprensa reluta em apoiar, mesmo que indiretamente, os descontentes, conforme se nota neste editorial do La Repubblica. Nesta manifestação, assim como em outras, abundam termos como "intolerância", "medo", "recusa ao diálogo" e "censura". Palavras que, ao menos aos meus ouvidos, soam muito mais adequadas à postura histórica da Igreja do que àquela da Ciência. Em resumo: o Papa ganhou o posto de vítima do momento, e deve aproveitar.
Mas essa foi a notícia de ontem. Amanhã, as notícias de hoje!
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